OPINIÃO - RAIO X DO TROFÉU
Pedro Junqueira
Publicado em 12/05/2008
Quem manja de natação se emociona sempre com a melhora de tempo. Pode ser a filha cortando alguns décimos na piscina da casa da avó ou o Phelps quebrando um recorde mundial, a essência da empolgação de torcedor é a mesma. Se além de melhora de tempo, vier um índice olímpico, uma vaga olímpica, um recorde brasileiro, sul-americano, quiçá mundial (alô Prado!, um quarto de século atrás), a emoção vira delírio. Assim que a Daynara de Paula, Gabriela Silva e os quatro fantásticos nadadores dos 100m de peito nos deram momentos inesquecíveis no Maria Lenk. O Guido e o Kaio, já de índices no bolso, nos brindaram com novas marcas continentais. Tá todo mundo fazendo conta para o 4x100 medley. 3m34s, 3m33s, uma melhoradinha aqui e acolá, 3m32s alto, uma prata inesperada, histórica, única, os sonhos não param.
Logo atrás no ranking de emoções, não preenchendo algum dos quesitos acima, vieram as grandes atuações da Joanna Maranhão, Tatiana Lemos, Tatiane Sakemi, Salatta e Rodrigo Castro. A Joanna, com seu índice A alcançado, deveria ser permitida nadar em Pequim, se quiser, os 200m medley e 200m borboleta, em cima do índice B alcançado nestas provas. Não prejudicaria ninguém e ajudaria ela mesmo e o Brasil. Estando ela na sua melhor forma no borboleta e costas, a matemática não explica como ainda não alcançou seus tempos de Atenas nas provas de medley. Ela tem chão pra melhorar e sabe que, quatro anos depois, muita gente entrou nos sub-4m40s, nos 400m medley. Pra Tatiana e Tatiane, assim como pra Monique e Michelle, vamos ficar torcendo até a data limite de 30 de junho, quando a FINA publica os revezamentos classificados. De qualquer forma, gostaria de ressaltar a generosidade da CBDA em levar atletas de revezamento ranqueado perto da décima-sexta colocação. Em algumas olimpíadas passadas isto não aconteceria. Talvez fosse o caso de aproveitá-las em provas individuais onde elas têm o índice B. Isto não incorreria em custos adicionais e teríamos somente vantagens.
O Rodrigo Castro, como sempre, fez valer seu lado brigador. Eu tiro o chapéu para ele. Do alto dos seus trinta anos, ele nadou seu melhor nos 100m e 400m livre e raspou nos 200m livre. De quebra, rompeu bonito a barreira dos 50 segundos nos 100m, roubou uma vaga no reveza 4x100m para Pequim, matou todo mundo na final dos 200m e abocanhou a prata nos 400m, vencendo todos os nossos fundistas. O Salatta, por sua vez, baixou bem suas marcas dos 200m borba, 200m costas, 100m livre e, não levando em conta a parcial milagrosa dele no reveza 4x200m livre no Pan, melhorou também seu tempo nos 200m livre. Deus sabe o que este garoto estaria nadando no medley. Alguém deveria contar pra ele.
O mundo Júnior, nosso futuro em Londres em 2012, marcou presença e promessa, mas eu vou deixar pro nosso especialista, Guilherme Freitas, continuar comentando a respeito. Os azarados da competição foram o Felipe Lima e o André Schultz. Este último não vai a Pequim por conta de uma saída esquisita nos 200m costas (ele escorregou?). O Felipe não vai por quatro centésimos. Os sortudos, mas com mérito, são o Phillip Morrinson, Fernando Silva e também o Deboni. O grande Nicolas Oliveira é difícil de entender. Sei que ele é quem mais sofre, mas pra quem viu os últimos 50 metros da fechada dele do reveza 4x200m no Pan, naqueles inesquecíveis 1m46s6, fica impossível conceber a performance dele nos 200m livre do Maria Lenk. Eu acho que, mais cedo ou mais tarde, ele nos premiará com uma outra performance sensacional. Espero que seja em Pequim.
Parciais de revezamento que merecem ser assinaladas foram os 57s80 da Gabriela Silva (não era outro dia que ela nadava acima de um minuto?) e os 21s88 do Bruno Fratus nos 4x50m livre. Este garoto velocista promete.
Com relação à performance de nossas três estrelas maiores eu diria o seguinte. O Kaio continua melhorando. Para os seus 1m75cm de altura, ele é inigualável no mundo. Não sei ao certo se ele realmente disse que perdeu o respeito pelo Phelps. Não precisa ser nestes termos, mas eu gostei do questionamento. Uma hora o Phelps para de melhorar e começa a piorar, e pode ser logo. O único nadador do mundo, até agora, que peitou esta idolatria desenfreada foi o Lochte. Pra mim, os 200m medley em Pequim não são favas contadas. O comentário do Kaio é bem vindo porque quebra com o protocolo da CBDA de satisfazer a fome da natação brasileira com o objetivo de uma mera medalha olímpica. Já fizemos muito mais do que isto em 1996 e 1984 (prata com jeito de derrota).
O Cielo continua na sua trajetória. Parece que não estava descansado. Se firmou na casa dos 21s nos 50m livre e ninguém levou a sério sua performance nos 100m livre. No fundo do coração dos brasileiros nadadores, ele é nossa esperança, não confessada, de ouro em Pequim. Mas o gap entre ele e os franceses e o Sullivan continua. A nosso favor temos a consistência e fome de vencedor do Cesão, a esquisitice da melhora repentina do Bernard e Leveaux, e as misteriosas contusões do Sullivan. Atualmente acho que temos uns 20% de chance, mas com o Cesão tudo é possível.
E o Thiago, nosso nadador excepcional, o mais completo, que eu chamo de nadador renascentista, ficou um pouco atrás das expectativas. Sei que é difícil melhorar o tempo quando o medalha de prata da prova dos 400m medley faz 4m30s. Dava até pra pedir para o Djan tirar o terno, enfiar um LZR Racer e vir botar uma pressão. Aliás, o Djan de 30 anos atrás levaria as provas de fundo e o argentino teria que se contentar com a prata. Mas foi o Thiago mesmo quem disse que tinha descansado e que o Maria Lenk era um teste de avaliação. Pois bem, foi um ótimo e tempestivo teste de avaliação. Hora de voltar pra piscina, reavaliar e tirar o máximo proveito destes três meses restantes. Há um ano, no mesmo Troféu Maria Lenk, três meses antes do Pan, ele nadou melhor. Mas o Brasil e o próprio Thiago esperam por uma performance em Pequim ainda superior àquela do Pan. E isto na pressão e anonimato do Cubo e não no conforto e apoio maciço do Maria Lenk. Parece que o Laslo e o Luca Marin ainda não progrediram desde Melbourne em 2007. Resta saber sobre a dupla Lochte e Phelps mês que vem. Eu não contaria com a estagnação dos americanos, pelo menos a do Lochte, já que o Phelps já está na lua. Sabemos, entretanto, para a nossa tranquilidade, que o Vanzella vai ficar em cima, de agora até agosto.
Para aqueles que nunca prestaram atenção neste detalhe. Tempo de passagem do Phelps nos 300 metros na prova de recorde mundial de 400m medley: 3m09s33. Tempo de passagem do Thiago, durante esta prova no Pan: 3m09s35. Outra: nesta mesma prova de recorde mundial do Phelps, em Melbourne, ele nadou os últimos 300m da prova em 3m11s17. O Luca Marin, medalha de bronze, nadou estes mesmos 300 metros finais em 3m10s28. Eis aí algumas brechas para se tentar conceber a derrota da fera.
Finalmente, um comentário final sobre a cobertura do SporTV. É sempre difícil aguentar as barbaridades faladas, ou mesmo as barrigadas de ex-nadadores. Quando o Manoel dos Santos subiu ao pódio para receber uma medalha do Coaracy, disseram que ele tinha sido medalha de prata em Roma, que o recorde sul-americano dele tinha durado só até 1969, e outras mais. Mas, como eu descrevi no meu artigo sobre As Trapalhadas da Mídia na Cobertura da Natação, na semana passada, muito se andou em termos de conhecimento natatório na TV a cabo especializada. Aqueles camisetas amarelas do SporTV fazem um esforço danado para nos agradarem. Quem não nasceu ontem, já teve que aturar o futebolista Márcio Guedes fazendo cobertura da natação, entre um cigarrinho e outro.
Pedro Junqueira – ex-nadador do Minas Tênis Clube dos anos 70, aposentado precocemente das piscinas, pesquisador e aficionado da natação e história, está escrevendo um livro sobre a história da natação competitiva do Brasil
Abraços a todos...
Ferinha
Abraços a todos...
Ferinha
Nenhum comentário:
Postar um comentário